Angela Moura
Valente resolveu declarar uma guerra bem
pessoal. Decidiu se libertar do Medo que o
aprisionava, ou melhor, o paralisava.
De medo em medo, ultimamente, vinha se
considerando um covarde.
Em muitas ocasiões, o Medo, com suas mil
caras, o havia derrotado. Real ou imaginário,
conseguiu desviá-lo do caminho uma dezena de
vezes, obrigando-o a ceder e abrir mão de coisas
essenciais.
Como
seria possível?
Tinha que ser o maior poder do mundo. Talvez
algum cientista, inventor de uma droga para
lavagens cerebrais. Quem sabe um louco com
poderes mágicos a influenciar mentes, dominar
vontades alheias, apagar os sonhos. Ou, até
mesmo, um dentista sádico...
O maior sonho do guerreiro passou a ser o de
matar esse Medo... Única forma de salvar a
Humanidade, a individualidade, a mortalidade, a sensibilidade, a nacionalidade e sabe-se lá mais
o
quê... Até mesmo sua sanidade.
Mais Valente do que nunca, decidiu:
- Só preciso de um aliado: a Coragem - minha
eterna parceira nas lutas com Deus e o Diabo.

Assim, cenas mais tarde, Valente e Coragem
partem para a grande aventura: a de acabar
com
o Medo.
Coragem ficou feliz com o convite. Tendo
Valente ao lado, qualquer luta ia ser fácil,
unindo
o útil ao agradável.
Repartir a excitação que
precede uma nova conquista com o bravo
Valente, não era para qualquer uma.
Coragem, com um olhar carinhoso, disse a
Valente:
- Pensei ter matado o Medo, mas, ele sempre
volta. Parece ser a força cósmica, a energia
que nos explode em adrenalinas, aumentando
nosso tamanho ao ridículo.
Depois de uma pausa, Coragem, ruborizada,
continuou:
- Concordo com você, Valente, precisamos
derrotá-lo, só então, poderemos viver em paz.
O mundo deveria estar ao nosso lado na
guerra... E adeus às armas, às brigas, ao
egoísmo, ao ódio, ao espelho e às mentiras.

Durante muitos anos de suas vidas, passaram a
perseguir o Medo. Não tinha jeito. O Medo
aparecia sempre que um dos dois se via
sozinho. Juntos, Valente e Coragem nem se
lembravam do Medo.
Também descobriram que o Medo de cada
um era diferente.
Para Valente, apenas uma sombra que o
seguia. Não devia ser muito forte, mas, sem
dúvida, traiçoeira. Aparecia durante o dia e se
ria dele.
Já o Medo de Coragem era grande,
desmedidamente forte e alto. Mais alto do que
a maioria. Aparecia à noite e não se escondia.
Pelo contrário, fazia questão de ser visto.
Uma noite, Coragem acordou Valente para
enfrentar o Medo.
- Valente, ele está encostado na parede ao
lado daquela porta!
Valente encheu os pulmões, pegou um revolver,
um
facão e foi desafiar o Medo de
Coragem para um duelo. Não viu nada.
Coragem, apavorada, apontava para uma
parede. Valente apenas conseguia enxergar um
quadro pendurado. Até que era bonitinho... E
o Medo onde estava? Será que Coragem
estava sonhando?

Coragem começou a chorar. Valente não
conseguia enfrentar o seu Medo. Talvez, nem
acreditasse nela... Como iria protegê-la?
De repente, detrás da cortina, voou uma
pequena mariposa.
Valente se arrepiou todo. Passou a tremer de
medo. Tinha horror a insetos, ainda mais
desses voadores.

Coragem teve muita vontade de rir. Mas,
lembrou-se de que até Valente tem sua hora de
folga. Então, séria, para aliviar a ansiedade do
amigo, pegou sua sombrinha e tratou de matar
aquela horrível bruxa.
MORAL DA HISTÓRIA:
Cada um precisa do outro.
Pimenta nos olhos dos outros pode ser
refresco; mas, medo no coração da gente não
é brincadeira, né?
Do livro ROBÔ DA VIDA e outros Contos.
Copyright©
1993 by Angela Moura
Todos os direitos registrados e reservados
(Repasse
com os devidos créditos)
Copyright©
2003 by Angela Moura
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e reservados
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