O Último dos Sorrisos
   

O Último dos Sorrisos

Angela Moura
 


Sorriso - o mais popular e
carismático, de satisfação em
satisfação, desafiou todos os tristes,
solitários e deprimidos da praça.
Sorrindo-lhe a sorte, o Sorriso
aconteceu nos parques, praias e
paqueras. Ganhou logo a maior freguesia.
General condecorado, com uma
fileira de dentes afiados e aliciados,
conseguiu enfrentar escancaradamente
o mau humor, o mau hálito e
os maus hábitos.
Exibindo medalhas, pontes de ouro
e outros metais nobres, arrasou
cóleras momentâneas e desarmou os
mais respeitáveis guardas de trânsito.
Vaidosamente espontâneo e rasgado,
não tinha rival.
Convencido do seu charme de
conquistador barato, disse sem
palavras, em fantasias, tudo o que
os outros sonhavam ouvir.
Malandro velho, zombeteiro, driblou
adversários na suavidade ou ao dente,
cortando e anestesiando línguas
ferinas ao sabor de seu deboche,
fazendo, em ironia, se ouvir o que não
se quis e o que nem Diabo gosta.
O último do(s) Sorriso(s) foi no bar da
esquina. Irreverente e inconseqüente,
ao sorrir para um estranho, não mediu
a dose.
O outro, chopeado , ainda ponderou
com o décimo copo:
- Das duas uma. Ou é provocação
de vadio ou cantada de viado.
E o estranho, sem esperar pelo
segundo, com um sorriso trincado
de raiva, acertou Sorriso com
um alcoolizado murro final.
Agora Sorriso, forçado, com
dentadura nova, anda por aí,
sorrindo amarelo.
    
Do livro O ROBÔ DA VIDA e outros Contos.
Copyright© 1993 by Angela Moura


(Repasse com os devidos créditos)



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